Monday, April 03, 2006

Buenos Aires -S.America's Big Apple


Buenos Aires -S.America's Big Apple Nota em português com explicação da situação atual da Argentina

PARA ENTENDER A ARGENTINA

Um colega brasileiro me perguntou como um país com fartura de terras, petróleo, gás e alimentos, com uma população educada, ganhador de cinco prêmios Nobel, que em 1930 era a sexta maior economia do planeta, pôde nos últimos cinqüenta anos dilapidar sua riqueza. Para explicar, tomarei emprestado um exemplo: coloque vários ratos numa gaiola ampla e confortável, dê a eles alimento em excesso durante algum tempo e então, progressivamente, vá reduzindo o tamanho da gaiola e a quantidade de alimento. Não vai demorar para que demonstrem irritação e comecem a agredir uns aos outros, ainda que a comida seja suficiente para todos.

Avenida 9 de julio ........Hotel Savoy


Na primeira metade do século XX, enquanto o Hemisfério Norte consumia sua energia em guerras, a riqueza argentina foi enorme e inesgotável. A Europa exportava para a Argentina trabalhadores saudáveis, bem alimentados e treinados e, ao mesmo tempo, importava os alimentos que esses trabalhadores produziam. Quando as guerras terminaram no Hemisfério Norte e a Europa começou a produzir o próprio alimento, os argentinos não se preocuparam. Acreditavam que, ao contrário do petróleo, as exportações de alimentos nunca teriam fim.

Ocorreu o inverso: graças ao aumento da produtividade trazido pela tecnologia, somado à baixa da taxa de natalidade, a produção mundial de alimentos per capita aumentou, reduzindo o preço desse produto de maneira constante.A fonte do rápido empobrecimento foi o rápido enriquecimento anterior: os ratos argentinos tinham tantos recursos disponíveis que não tentaram encontrar alternativas.Outro paradoxo: o desenvolvimento capitalista das nações é diretamente proporcional ao desenvolvimento educativo de sua população.

A Argentina deveria ter crescido, portanto, mais que o Brasil e qualquer outro país emergente. Por que isso não ocorreu?Nesse caso, a ordem dos fatores altera o produto. Ou seja, o desenvolvimento educacional é uma conseqüência natural do econômico (os países ricos podem investir mais em educação). Mas o desenvolvimento educacional não garante o econômico.A Argentina tem uma população bem-educada por ter sido um país rico no passado.

Essa gente, superqualificada para o diminuto papel que hoje a Argentina tem no comércio internacional, deixou de ser uma vantagem: são milhões de frustrados, que esperam mais do que o país pode oferecer. A escola pública, criada quando a Argentina era a sexta potência global, ensinou a seus alunos que o país era uma potência mundial da qual se podiam esperar os melhores frutos.

A autopercepção dos argentinos não é a de viverem em um país subdesenvolvido, mas a de que são cidadãos do Primeiro Mundo, aspiração que não se ajusta à realidade. A solução é aceitar que aquela Argentina pré-1950 não existe mais. A conversão de 1 peso em 1 dólar não foi só uma ferramenta econômica. Representou também um símbolo emocional de igualdade com os países mais poderosos – e nisso residia sua enorme popularidade.

O abandono da paridade foi a abdicação desse sonho e o começo de uma Argentina mais realista, mais humilde e, talvez, no futuro, até mais bem-sucedida. O presidente Duhalde, quando disse aos empresários argentinos "vocês todos estão quebrados, o país está quebrado", provavelmente tinha lido a recomendação de Confúcio de como servir com lealdade ao soberano (o povo): "Diga-lhe a verdade! Ainda que se ofenda".

PUERTO MADERO acima; e também visto do ar:

Atrium:Hotel Hilton-Puerto Madero